Os 5 principais erros de reabilitação que…nos mantêm lesionados

Já vai longo o tempo em que continuamos lesionados e não conseguimos perceber porque é que aquela dor chata persiste e não vai embora.

Hmm… Se calhar vale a pena começar a questionar o que estamos a fazer para recuperar dessa mesma lesão. Será que a metodologia de reabilitação que nos “prescreveram” é adequada?

Vamos então conhecer os 5 principais erros mais comuns que a maioria das pessoas insiste em fazer e que…só os ajudam a manter-se no mesmo estado, ou seja, lesionados!

 

1. Alongamentos passivos

Quem já leu alguns dos meus artigos saberá o quanto desaconselho o uso desta prática!

Existem várias razões pelas quais os alongamentos passivos são desaconselhados e algumas já as enumerei nos seguintes artigos link e link.

Dores nos joelhos? Solução: esticar os isquiotibiais. Dores nas costas? Solução: esticar os isquiotibiais outra vez e mais umas quantas posições loucas de rotação da coluna para esticar não se sabe bem o quê. Dor no tendão de aquiles? Solução: esticar os gémeos.

Se por cada vez que alguém dissesse que para todos os problemas ortopédicos deveríamos esticar (não sei bem o quê) as articulações e eu ganhasse um euro, estaria numa situação financeira bem superior  🙂 

Hei-de escrever mais aprofundadamente sobre este tema, mas a verdade é que há muito pouca evidência de que “esticar” os músculos/articulações faz mais do que aumentar a amplitude articular. Aliás existe evidência suficiente a referir que o que está efectivamente a acontecer é um aumento da tolerância à dor do alongamento e não ganho de amplitude articular.

No fundo se continua a esticar e o problema não passa, talvez seja o momento de deixar essa prática de lado.

 

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2. “Auto-libertação miofascial” (O quê?!)

É isso mesmo. Deram um nome de marketing à acção de passar um rolo (qualquer dia tem o formato de um da massa) sobre o corpo ou vice-versa.

Analisemos o termo “Auto-libertação miofascial”. Auto – eu próprio. Libertação – vou-me livrar de. Miofascial – vou-me livrar da fáscia que envolve os meus músculos e o resto do corpo?!!

Eu penso que é tão ridículo que diz tudo. No entanto, para quem não sabe e tem dúvidas, eu esclareço. Não é um rolo que nos vai “libertar da nossa fáscia”. A única forma que neste momento estou a ver de nos livrarmos da nossa fáscia é com um BISTURI! No entanto, não me parece de bom senso querermo-nos “libertar da fáscia” visto que esta é um elemento muito importante do nosso corpo que vale a pena preservar.

Esta prática tornou-se na nova grande moda. Existem montes de cursos por todo o lado sobre esta moda que começou há mais de 15 anos.

Para que se saiba também tenho um rolo destes que comprei há quase…10 anos, quando ainda não havia esta moda em Portugal. E deixei de usar pouco depois , quando me dediquei a estudar devidamente alguns dos seus efeitos. Aliás, eu quando utilizava esta técnica era conhecido no meio como Pedro o Calceteiro do Fitness 🙂

O rolo que tenho felizmente, não é tão agressivo como os que vejo hoje em dia que são verdadeiros instrumentos de tortura. No entanto, o meu está guardado no baú das más recordações do fitness.

Ora sem precisar de recorrer à ciência temos…o bom senso. Se doí numa determinada parte do corpo será que infligir mais dor irá fazer essa dor passar?! Parece-me que não.

Como dizia o meu amigo Paul Argent sobre estes rolos “se temos uma dor de cabeça não vamos utilizar o berbequim no crânio para a fazer passar”. 

Deixo-vos o link para o artigo que ele escreveu sobre o uso destes rolos.  

Depois, sendo a fáscia um elemento tão complexo e que envolve e penetra o corpo de forma tão profunda como se pode dizer que usar o rolo vai trabalhar só a fáscia?! E todo o esmagamento que ocorre entre o rolo e o corpo como por exemplo da pele, gordura, veias, possivelmente artérias, compressão óssea, etc. Será isto saudável? Não, é moda!

Existe também a justificação do uso destes rolos para resolver o problema dos… “trigger points”. Mais um tema para explorar num próximo artigo. No entanto, embora hajam livros inteiros escritos sobre trigger points, a investigação não os encontra. 

Depois há a tentativa de esticar a banda iliotibial, que não é possivel ser esticada porque tem quase as propriedades de um cabo de aço!

O tema da fáscia é demasiado extenso e complexo para estar a disseminar neste artigo. No entanto, para trabalhar algo específico é necessário uma abordagem manual específica e com minucia e não um com um rolo que abalroa tudo indiscriminadamente por onde passa!

O trabalho fascial é muito complexo e como tal é necessário ser realizado por alguém que entenda a neurofisiologia e mecânica da fáscia. Por isso o meu conselho é deixemos o trabalho fascial para quem se dedica a esta temática.

 

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3. Os músculos vilões VS músculos heróis

Já alguma vez ouviram o vosso treinador ou terapeuta dizer que têm o músculo X encurtado e o Y alongado? Ou melhor, já ouviram dizer que os músculos vilões são o Psoas Ilíaco, o Piramidal ou o Tensor da Fáscia Lata? E que os músculos heróis são os Glúteos (todos), o Transverso Abdominal ou os Isquiotibiais?

Felizmente já não tenho que ouvir isto todos os dias.

Deixemos a ciência de lado e vamos mais uma vez ao bom senso. Ora se temos aproximadamente 650 músculos no nosso corpo, porque é que só estes é que são bons e outros os maus?! Não há mais músculos?

Será que continuar a alongar passivamente uns e contrair forçadamente outros trará resultados? A mim parece-me um tiro no escuro! Aliás, com a complexidade que temos dentro do nosso corpo, esta abordagem parece-me demasiado redutora.

E que tal avaliar cada peça e ver o que pode estar a acontecer em cada articulação ou em cada divisão de cada músculo? Será que cada músculo é capaz de comunicar eficientemente com o sistema nervoso e vice-versa? Será que tem tolerância a uma determinada força?

Cada corpo é um corpo e cada sistema nervoso responde de forma diferente. E nesse sentido temos que ser mais precisos/analíticos na nossa análise do problema.

 

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4. “Exercícios de reabilitação”

Existe esta crença que existem exercícios de reabilitação e exercícios de treino. A verdade é que não passa de uma crença. O que de facto existe é a necessidade do cliente/paciente. Embora na reabilitação física se utilizem mais os elásticos, bolas e superfícies instáveis isso não faz com que estes exercícios sejam de reabilitação e/ou mais específicos para as necessidades articulares dos pacientes.

Os elásticos, utilizados de determinadas formas, acabam por colocar uma carga excessiva sobre a articulação dada as suas propriedades mecânicas, tornando-os assim desadequados.

O mesmo acontece com as bolas e superfícies instáveis. Não é por adicionar mais instabilidade que se vai tornar uma articulação mais estável. Primeiro domina-se o estável e depois avança-se para a instabilidade. Mas mesmo assim tem que ser de forma criteriosa. Desta forma o recurso às Técnicas de Activação Muscular configura um excelente método para avaliar se a orquestração por parte do sistema nervoso ao sistema muscular consegue ser sólida o suficiente para tolerar a instabilidade imposta por estas superfícies.

Só um aparte reparem na imagem do canto superior direito abaixo, é a minha favorita. O senhor não tem a capacidade de se manter em pé? Não faz mal! Suspendêmo-lo com uma espécie de grua para o colocar a fazer malabarismo num skate!

Outro aspecto importante é a manipulação de forças para fazer face ao problema. Ou seja, a construção do exercício para a necessidade da articulação afectada. E isso só se consegue com conhecimento em biomecânica.

 

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5. Exercícios multi-articulares

Ok, até aqui estivemos a esticar músculos e articulações, esmagá-los com um rolo e demos-lhe mais instabilidade com uma superfície instável, o que se segue então (tratamos bem o nosso corpo 🙂 )? Tornar os músculos mais fortes!

E como se faz isso? Com exercícios de “força” multi-articulares. Certo? Erradíssimo!

Em casos específicos, temos que ser específicos. Não são soluções globais e/ou gerais que vão resolver o problema. Não é por me doer as costas que a solução é ir fazer natação como ouço tantas vezes!!

Todas as peças do puzzle têm que ser analisadas. O exercício global só vai reforçar a compensação. A debilidade não passa como que por magia. É necessário identificá-la e devolver capacidade contráctil aos músculos que estão fracos.

Por outro lado o que vos parece que é mais fácil para o sistema nervoso, focar numa articulação ou em várias ao mesmo tempo? É isso mesmo. 

Como já referi num artigo anterior, não são os exercícios que são funcionais, são as articulações. Nós apenas temos que desenvolver os exercícios (depois de devida avaliação articular) que respeitem e potenciem o funcionamento da articulação envolvida.

 

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No próximo artigo irei apresentar algumas soluções práticas que podem ser introduzidas no treino de forma a prevenir lesões e que também podem contribuir para ajudar na reabilitação de lesões articulares.

 

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Referências:

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Magnusson SP, Simonsen EB. A mechanism for altered flexibility in human skeletal muscle. Journal of Physiology.1996; 497(1): 291-298 .

Halbertsma J, Goeken L. Stretching Exercises: Effect on passive extensibility and stiffness in short hamstrings of healthy subjects. Arch Phys Med Rehabil. 1994; 75.

Aquino C, Fonseca T. et al. Stretching versus strength training in lengthened position in subjects with tight hamstring muscles: A randomized controlled trial. Manual Therapy. 2010; 15: 26–31.

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Biomecânica: parte 2. A ciência ao serviço do corpo

Quando se aplica força a um corpo existem duas variáveis que vão sempre de mão dada: o risco e o benefício.

Ora se o risco existe e é real, não vale a pena tentarmos saber um pouco mais como o reduzir?

Por isso, para se estar do lado do benefício é preciso estudar…biomecânica!

Porquê? Para se saber o que se faz! Como? Tendo domínio das ciências que servem de pré-requisito ao estudo da biomecânica e com o desenvolvimento do estudo da mesma, como profissionais, dotamo-nos de uma visão raio-X!

Esta ferramenta é fundamental para que tanto os profissionais de fitness e de reabilitação virem o seu foco para a performance interna.

Performance interna é o foco no interior, foca nas articulações, nos músculos, privilegiando o sistema nervoso como centro de controlo de todo este processo.

A grande maioria das modalidades de fitness tem o seu foco na performance externa. Associado a este facto está também aquilo a que designo de mitologia do fitness que se tornou quase uma ciência paralela, mas que atrai muitos mais profissionais do que a verdadeira ciência!

Ora tomemos como exemplo uma das afirmações mais falaciosas que minam esta profissão: “não devemos treinar músculos, mas sim os movimentos”! Quando ouço isto até deito fumo das orelhas  :-).

Ora o que é que move as nossas articulações?! Hmm? Que eu saiba são os músculos! Se, por acaso melhorarmos a função de um músculo não conseguiremos desempenhar melhor um determinado movimento? Não passaríamos assim, a realizar esse mesmo movimento estando mais do lado do benefício do que do risco?

 

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Os movimentos externos em si não são funcionais. Não podemos sequer classificar exercícios como funcionais pois podem não se adequar a todos os corpos/articulações. Se o exercício é pré-determinado sem que haja uma avaliação de como funciona cada articulação envolvida no mesmo, este não é funcional! O movimento articular esse sim é funcional! Para tal é necessário garantir que todos os músculos que o efectuam estão de facto a exercer a sua função de controlar o movimento articular. Mas para isso tem que se saber o seu eixo, o que são roldanas anatómicas, braços de momento, etc. E isso só se sabe como? Estudando mecânica do exercício.

 

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Nesta imagem podemos ver 3 cenários. No primeiro cenário não sabemos em que sentido a senhora vai mover o braço, se em flexão ou extensão, porque não sabemos a direcção, magnitude e ponto de aplicação da força que lhe vai mover o braço. No segundo cenário sabemos que existe uma força a puxar o braço em extensão e por isso agora sabemos qual vai ser a solicitação interna para esta posição, ou seja serão os músculos que nesta posição resistem à extensão (grande peitoral, deltoide anterior, coraco-braquial, etc). E reparem que não escrevi os flexores do ombro pois podem variam de acordo com vários factores como poderão ver mais abaixo. No terceiro cenário, verifica-se uma força a puxar o braço em flexão e portanto, serão os extensores do ombro nesta posição a resistir (grande dorsal, deltoide posterior, grande redondo, etc). 

Isto tudo para perceberem que os movimentos em si não nos dizem nada é necessário ter mais dados (e neste exemplo temos apenas o de uma força, mas existem mais a saber) para saber qual a solicitação interna.

Portanto, focar apenas no movimento é performance externa!

Conseguem perceber agora a diferença entre foco na performance interna vs performance externa? Melhorando a performance interna estamos a criar uma fundação muito sólida para conseguirmos posteriormente melhorar a performance externa.

Como profissionais temos mesmo que nos focar cada vez mais no interior. Não podemos ignorar o facto de o número de lesões decorrentes da prática de exercício físico ter atingido patamares epidemiológicos.

 

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Deixo-vos um exemplo de como o foco no interior pode modificar completamente um exercício para o tornarmos adequado ao objectivo que temos para o mesmo. Deixo-vos também com uma amostra do que é ter visão raio-x para percebermos o que acontece exteriormente mas não se vê a olho nu. E lá porque não se vê…não quer dizer que não exista!

Neste exemplo das “flexões de braços”, podemos ainda notar como a manipulação das forças internas pode modificar as forças externas.

 

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Vou tentar simplificar ao máximo, não querendo debruçar-me sobre o efeito provocado pelo atrito nem o que são eixos e braços de momento, etc. Nesta imagem podemos ver como este exercício difere de uma flexão normal. O que acontece de diferente é que se aplicarmos força para baixo e para dentro criamos uma resultante de forças que passa fora do cotovelo e fora do ombro. No entanto a distância dessa força ao eixo do ombro é maior que ao do cotovelo tanto no topo como em baixo. Em baixo a distância da força ao eixo do cotovelo é mínima. Mas o que significa isto? Significa que resultará numa maior solicitação do grande peitoral (mais na fibras esternais e claviculares), deltóide anterior e também uma participação grande do…bicípete braquial! O quê? Como é que isso é possível? Mas não é o tricípite que extende o cotovelo? Pois é, quando associamos apenas músculos a funções é o que acontece.

Os músculos variam a sua função de acordo com a solicitação que lhes é imposta pelas forças. E neste exemplo é o bicípite braquial que realiza a extensão do cotovelo. Temos que pensar em forças (e outros elementos) para podermos deduzir qual a solicitação interna.

 

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Nestas “flexões de braços” a intenção do empurrar é para baixo e para fora o que muda a direcção da resultante de forças fazendo com que esta passe agora muito próxima tanto do eixo do ombro como do eixo do cotovelo do lado de dentro. Em baixo a resultante chega a passar mesmo pelo eixo do ombro que faz com que os músculos dessa articulação tenha uma menor solicitação e seja, neste caso, o tricípite braquial a assumir maior preponderância na extensão do cotovelo. Em cima dado que há uma pequena distância dessa linha de força ao ombro, mas do lado de dentro, o músculo no ombro com maior preponderância será o…deltóide posterior!

Podem ver mais exemplos como este na minha página do facebook no seguinte link.

Será que estas mudanças podem fazer a diferença para quem tem patologias ortopédicas no ombro e cotovelo? Bastante mesmo. Ao induzirmos estas alterações nas forças internas pode ser o suficiente entre realizar este exercício com ou sem dores. Quero sublinhar que estas modificações devem ser introduzidas de forma estratégica e não arbitrária de forma a poderem contribuir para uma melhoria das articulações envolvidas.

Surpreendente? Imaginem o que se pode manipular com este conhecimento de forma a fazer face às especificidades de cada cliente/paciente, o que se pode fazer em cada articulação, os músculos que se podem solicitar, etc.

Mas o que se diz é que o conhecimento em biomecânica/mecânica do exercício não tem aplicação prática não é? O exemplo anterior é uma prova de que isso não é verdade.

Um dos pontos fortes a favor da Mecânica do Exercício é o facto de se basear numa ciência exacta, que nos permite calcular e obter dados precisos do que está efectivamente a acontecer nas nossas articulações. Ou seja, é muito difícil de contra argumentar. Podem vir com a teoria X ou Y ou com o que o guru Master Jedi Fitness (pensando melhor talvez seja mais Fitness Sith Lord) disse que isso pode ser facilmente desacreditado com o recurso à Mecânica do Exercício :).

Tomemos outro exemplo, este no âmbito da reabilitação. O que se pode fazer para fazer face a uma patologia degenerativa como por exemplo uma osteoartrose do joelho? Manipulando as forças internas e externas podemos melhorar a função dessa articulação ajudando a diminuir os efeitos causados por esta patologia. Podemos ainda conseguir que o cliente realize um movimento articular que não seria capaz de realizar anteriormente pois fomos capazes de manipular as forças externas de modo a reduzir o efeito das forças internas sobre o local de maior desgaste na cartilagem e osso.

 

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Outro aspecto fundamental é que com este conhecimento munimo-nos com a capacidade de sermos nós a criar/desenvolver os exercícios de acordo com o funcionamento das articulações dos nossos clientes e não em ir buscar algo pré-determinado ou uma sequência de exercícios coreografada.

Mas como podemos avaliar a mecânica de cada articulação e o controlo exercido pelos músculos que a rodeiam? As Técnicas de Activação Muscular juntam o conhecimento em biomecânica com uma metodologia específica para testar a capacidade dos músculos comunicarem com o sistema nervoso central. Deixo-vos o link para o artigo que escrevi sobre esta técnica.

Neste sentido deixo-vos um conselho, se algum profissional de fitness ou saúde olhar para vocês, sem sequer vos avaliar, e disser “o que você tem é X”, fujam! Porque essa pessoa não tem noção do que está a dizer. Em certos casos, e haverá muitos, em que temos que ser humildes e simplesmente dizer “não sei”. Mas sem estar munido de uma metodologia de avaliação…não se pode avaliar ninguém e chegar a quaisquer conclusões sobre o que o cliente/paciente tem ou não. A visão não é de todo o nosso melhor método de avaliação articular. Aliás como ficou demonstrado no exemplo das flexões de braços. O que não se vê, não que dizer que não exista. 

Estudar mecânica do exercício é tornar os exercícios adequados a cada articulação, às necessidades de cada cliente/paciente. É tornar o Personal Training verdadeiramente personalizado. É visualizar o que realmente acontece dentro da articulação a cada momento, a cada grau de movimento quando realizamos cada exercício.

 

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Referências:

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Inouye, J. et al. A Survey of Musculoskeletal Injuries Associated with Zumba. Hawaii J Med Public Health. 2013. 72(12): 433–436.

Girardi, A. et al. The Injury Consequences of Promoting Physical Activity An Evidence Review. BC Injury Research and Prevention Unit. 2013

Jones, C. et al. Weight Training Injury Trends. The Physician and Sportsmedicine. 2000. 28:7, 61-72

Biomecânica: parte 1. A ciência incompreendida

Como sabemos a indústria do Fitness possivelmente mais do que nenhuma outra é extremamente permeável a modas e “tendências” que se alastram também para o campo da reabilitação. No ano tal é a moda disto, no ano seguinte é a moda daquilo. E depois existem as modas que começam e tendem a ficar. Este ano estou para ver o que é que vai aparecer!

Ora lamento informar mas, moda não é…ciência! Tendências não constituem… ciência! Se estas influenciam a forma como se conduz alguma investigação? Isso é outra estória. Que tem uma parte positiva quando se tenta investigar de forma fiável, não enviesada se uma teoria corresponde à verdade. E a parte negativa verifica-se quando existe enviesamento para tentar apoiar uma determinada teoria que pode não ter suporte científico.

Esta última é a mais perigosa pois vai, com uma certeza muito grande, influenciar a prática de milhares de profissionais que não questionam essa investigação. E mesmo mais tarde quando se realizam estudos de revisão cujos resultados apontam para conclusões pobres, especulativas e metodologias de baixa qualidade, os danos já estão causados.

 

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Se reflectirmos um pouco sobre a variável que é transversal a todas (mesmo todas sem excepção) as modalidades de fitness e reabilitação? Aplicação de Força! Não acreditam? Dou-vos vários exemplos:

– Resistência Manual

– Resistência do peso do corpo (também designado de calisténico)

– Resistência dos elásticos

– Resistência provocada por máquinas de “musculação”

– Resistência dos pesos

– Manutenção do Equilíbrio (não postura, não é a mesma coisa!)

– Resistência de molas (muito comum no Pilates)

– Resistência da água

– Exercício “cardio-vascular” (Sim o “cardio” é um exercício de força)

– Massagem (seja ela qual for é uma força aplicada ao corpo)

– Manipulação articular

– Ondas de choque

– Ultrassom

– Etc.

 

Em que modalidades estão representadas estas diferentes formas de resistência? Em todas! Ioga, Pilates, Personal Training, aulas de grupos, corrida, andar de bicicleta, qualquer modalidade terapêutica, etc.

 

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Por que é que a força é tão importante então?

A resposta mais simples? Porque sem ela não existiríamos!

Foi através da força que ocorreu o nosso desenvolvimento como espécie.

Toda a nossa tecnologia biológica foi desenvolvida para funcionar com uma força que nos puxa para o centro do nosso planeta.

Quando os astronautas permanecem demasiado tempo no espaço, os seus corpos sofrem várias consequências devido ao efeito da microgravidade. As mais frequentes são a perda de massa muscular e óssea com concomitante perda de capacidade contráctil muscular (que obviamente reduz a capacidade dos músculos produzirem força) e o desenvolvimento de problemas cardíacos devido a uma alteração na forma do coração.

Para lidar com a gravidade, o nosso corpo está munido de mecanismos que permitem que o sangue circule em sentido oposto ao da gravidade, denominados de mecanismos de retorno venoso. Se a gravidade deixa de exercer a sua força certamente o sistema circulatório irá ressentir-se dessa alteração de ambiente. 

 

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No que diz respeito ao exercício físico, a força é utilizada para conseguirmos atingir os nossos resultados, sejam eles quais forem! Perda de massa gorda, aumento de massa muscular, ganhos de amplitude articular, melhoria da função cardio-respiratória, etc.

Na reabilitação, a força é utilizada em qualquer processo terapêutico com a finalidade de melhorar a funcionalidade da articulação afectada bem como os tecidos que a envolvem.

No desporto, é a preparação física através da força que se consegue melhorar o desempenho desportivo.

Ok! Qual o propósito disto? Perguntam vocês.

Força é um agente de mudança como podemos verificar nos exemplos que referi anteriormente.

Sem força nós não existiríamos. Sem força não existiria anatomia nem fisiologia. Aliás a anatomia e a fisiologia são um produto da força como agente de desenvolvimento e mudança que é.

Então porque raio é que no fitness e na reabilitação, mas principalmente no fitness, o estudo da força (biomecânica) não é uma prioridade na formação destes profissionais??!!

 

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Existem várias razões mas a principal, como eu já ouvi muitas vezes é porque é difícil e não tem aplicabilidade prática. Ah sim? E o estudo da química é fácil? A anatomia é fácil? A fisiologia é fácil? Mas temos que saber! Pelo menos aquela que é fundamental para exercer a profissão.

Nas faculdades a biomecânica é-nos ensinada de uma forma muito pouco prática! Levando os profissionais a não darem continuidade ao estuda desta temática.

Depois há o mito de que estudar biomecânica só serve para efeitos de reabilitação. Nada poderia estar mais longe da verdade. É tão importante na reabilitação física como o é no personal training. Na segunda parte deste artigo irei explicar como esta ciência ajuda a tornar o Personal Training e a reabilitação verdadeiramente personalizados.

Na grande maioria dos cursos profissionais a formação em biomecânica é quase inexistente. Outras vezes leciona-se biomecânica confundindo-a com o estudo de outras matérias como é o caso da cinemática. Em Portugal a EXS é a única escola de formação focada em dotar os seus formandos de conhecimentos em biomecânica.

Mas afinal o que estuda a biomecânica? A definição clássica de Biomecânica é a de ser a ciência que estuda a estrutura e a função de sistemas biológicos como os seres humanos, animais, plantas, órgãos e células através da metodologia da mecânica.

Nas áreas especificas do fitness e reabilitação física emerge, assim uma nova área que é um sub-ramo da biomecânica, designada de Mecânica do Exercício. Esta permite estudar de forma mais prática e específica as matérias que interessam saber da biomecânica.

E para se estudar Mecânica do Exercício é preciso ter um domínio mínimo de 3 áreas fundamentais: anatomia, fisiologia e neurofisiologia.

Porquê? Porque quando aplicamos uma força a um corpo ocorrem respostas químicas, eléctricas, endócrinas e mecânicas. E temos que saber quais são!

 

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Trata-se de um processo de estudo para a vida!

Eu diria que a biomecânica é a área de estudo mais incompreendida. Eu sei, pareceu um bocado melodramático :-).

Tomemos como exemplo a classe médica. O nível de estudo e dedicação que estes profissionais têm que ter para exercer a sua profissão é enorme. Só desta forma é que estes profissionais conquistaram o respeito e reconhecimento de toda a sociedade.

Ora acham que os profissionais de fitness e de reabilitação física não têm grandes responsabilidades quando aplicam força a um corpo sabendo as consequências que estas podem gerar? Se queremos ter o respeito que outras classes profissionais e da própria sociedade, temos que nos dedicar da mesma forma ao estudo das matérias fundamentais para elevar o nível e reconhecimento desta profissão.

É neste sentido que vos deixo o conselho para escolherem profissionais que estudam biomecânica. Terão assim, uma garantia de que essa pessoa dedicará o seu tempo a procurar a melhor solução para as suas articulações.

 

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Referências:

May, C. et al. Affect of Microgravity on Cardiac Shape: Comparison of Pre- and In-flight Data to Mathematical Modeling. J Am Coll Cardiol. 2014;63 (12)

Williams, D. et al. Acclimation during space flight: effects on human physiology. CMAJ. 2009; 180(13): 1317–1323.

Alexander, R. Mechanics of animal movement. Current Biology. 2005; 15(16).

Hatze, H. The meaning of the term ‘biomechanics’. Journal Of Biomechanics. 1974; 7(2): 189-190.

A melhor forma de prevenir lesões articulares

Nos dias que correm, a crescente proliferação de ginásio e modalidades de exercício físico ao ar livre têm estendido um leque vasto de opções para o consumidor no que toca à prática de exercício físico.

Crossfit, clubes de corrida, bootcamps, ciclismo em grupo e todas as aulas de grupo (que fazem parte da oferta dos ginásios) estão entre as mais procuradas.

No entanto, todo o foco do exercício para a saúde virou-se para o exterior e não para o mais importante: o nosso corpo.

Ora vejamos esse reflexo na seguinte conversa.

Zeca: Olá Jorge estás bom?

Jorge: Tudo bem. Ouvi dizer que já estás a correr os 50km.

Zeca: É verdade. Com muito sacrifício que me sai do corpo. Mas já lá cheguei. Embora ainda sinta uma dor no joelho, mas isso faz parte não é?

Jorge: Epá pois, isso é bem verdade. Para se chegar a algum lado tem que se sofrer um pouco e a dor é normal! Eu no outro dia estava no ginásio a fazer um supino com barra deitado e começou a doer-me o ombro, mas eu não quis saber! Um gajo não pode ligar a essas coisas. A seguir carreguei-lhe com mais 20Kg e vê tu bem que consegui levantar 100Kg (aqui claramente já com ar de fanfarrão)!

Zeca: Então e mais tarde não te doeu?

Jorge: Nem imaginas, nem conseguia levantar o braço para escovar os dentes!

 

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Oh meus amigos (Interrupção à Diácono Remédios). Assim não pode ser!

Ora no exemplo anterior (fictício) o que é que as palavras a negrito nos dizem?

Reparem nos números e nas palavras: 50Km; sacrifício; dor; sofrer; dor é normal; doer-me o ombro, mas eu não quis saber; 20Kg; 100Kg.

 

Mas o que é que esta história tem a ver com prevenir lesões? Já lá chegaremos.

 

Este é o reflexo do que a sociedade e o marketing valorizam/glorificam. Ou seja, o exterior ou a performance externa que são os números e os sacrifícios/dor para os atingirem.

 

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“No pain, no gain”. Já ouviram esta máxima de certeza. E se a substituíssemos por “No brain, no gain”!

 

Será que com isto estarei eu a dizer que para alcançar qualquer objectivo não é necessário esforço?

Não! Esforço, empenho e compromisso são diferentes de sacrífico/dor física.

Estes últimos são claros, repito claros, indicadores de que algo vai mal no nosso sistema e nós escolhemos não prestar atenção (embora o nosso corpo nos dê muitos avisos) porque seguimos as tendências do marketing para esta área em particular.

Ah então tu és contra o marketing (poderão alguns perguntar)! A sério?? Foi mesmo isso que eu disse?! 

Onde é que nós íamos? Ah! Então, se há um grande ênfase na performance externa significa que o interior (ou a performance interna) não são valorizados.

Mas o que é isso da performance interna? Trata-se da valorização e optimização dos sistemas do corpo humano que nos movimentam. Trata-se de virar o foco para as articulações, músculos, ligamentos, tendões, sistema nervoso, etc.

 

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Agora sim! Chegámos à parte da prevenção de lesões.

 Por mais incrível que parece a vasta maioria das pessoas lesiona-se (e refiro-me a lesões em que não há contacto como sofrer uma entrada num jogo de futebol) por uma razão muito simples: não conseguem contrair adequadamente os músculos!

Existem muitas razões para que isso aconteça e nesse sentido dedicarei um artigo a esta temática.

Mas pensemos no seguinte. O que é que movimenta as nossas articulações? Os músculos, certo? E estes respondem ao nosso controlo voluntário.

Vamos imaginar que eu vou correr e alguns dos músculos que conferem estabilidade à minha articulação do tornozelo não estão fortes o suficiente e como tal não conseguem suportar as cargas a que eu vou estar sujeito durante a corrida.

O que poderá isso causar? Instabilidade na articulação do tornozelo, dificuldade em controlar a articulação durante o movimento, sobrecarga de outros músculos na tentativa de compensar o trabalho dos que estão mais fracos que poderá levar a desgaste articular e potencialmente o desencadeamento de uma lesão.

Neste sentido, é indispensável que quer em reabilitação de lesões, quer em personal training, quer no treino para a performance desportiva se garanta que o foco seja na contracção muscular.

Não basta levantar pesos, empurrar uma barra ou fazer qualquer movimento numa máquina se não conseguimos ter foco suficiente para contrair os músculos que estamos a trabalhar garantindo assim, o controlo das articulações envolvidas.

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Para além da contracção muscular existem outras questões fundamentais:

  • Consegue o músculo contrair ao longo de todo o movimento articular?
  • Conseguirá o músculo responder adequadamente quando solicitado?
  • Em que ângulos não consegue contrair adequadamente?
  • Que cargas conseguirá para tolerar?

 

 

Procurarei dar resposta a todas estas perguntas em outros artigos mas posso dizer-vos que fazer contrair um músculo adequadamente não é tarefa fácil, é um trabalho difícil, minucioso, que requer muita concentração e não são muitos os profissionais com formação adequada para conseguir este desempenho.

MAT (Muscle Activation Techniques) ou em português Técnicas de Activação Muscular é uma modalidade terapêutica que se foca na optimização da contracção muscular quer para a reabilitação de lesões quer para a melhoria do desempenho desportivo.

Quanto melhor for a capacidade dos nossos músculos tolerarem as cargas impostas pela nossa prática de exercício físico e quanto melhor for a comunicação dos nossos músculos com o sistema nervoso, mais eficiente será o funcionamento das articulações e menores serão as hipóteses de nos lesionarmos.

Não percam o próximo artigo. Irei abordar um pouco o que são as Técnicas de Activação Muscular e como vos poderão ajudar.

 

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