Reflexão: recomendações de exercícios

Em primeiro lugar quero já frustrar-vos as expectativas se, por ventura, poderão pensar que escrevo este artigo sobre “os melhores exercícios” ou quais as minhas recomendações de exercícios para o efeito X ou Y.

Ultimamente tenho tido alguns contacto de colegas e pessoas interessadas em saber mais sobre a minha metodologia e surgem algumas questões sobre exercícios.

Assim, escrevo este artigo no sentido de alertar para as recomendações de exercícios feitas quer por profissionais de exercício quer de reabilitação física.

É muito possível que haja alguém, algures que possa ficar zangado comigo por causa deste artigo :).

Quantas vezes abrimos o facebook e nos deparamos com uma quantidade enorme de posts sobre recomendações de exercícios quer de amigos, quer de Personal Trainers, quer de profissionais de reabilitação, para alcançar o resultado X ou Y ou para ajudar na reabilitação da patologia ortopédica X ou Y?

Surgem-nos conselhos de “os melhores exercícios” a realizar; o exercício tal que tem um efeito milagroso; a melhor rotina de exercícios para perder peso; a melhor rotina de exercícios para se manter activo (seja lá o que isso é); etc. São infindáveis o número de recomendações de exercícios!!!

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Ok, vamos parar um pouco e reflectir sobre o assunto.

Será ou não uma enorme responsabilidade aplicar força a um corpo humano? A mim parece-me que sim. Quem já leu alguns dos meus artigos sabe a importância que dou à relação entre o organismo humano com as forças envolvidas no nosso meio, ou seja, a biomecânica.

Neste sentido, se existe uma dose que pode comprometer a saúde articular de clientes e pacientes então como conseguimos medir essa dose se não sabemos para quem estamos a recomendar esses exercícios?

Na aplicação de força a um organismo biológico, existe como já referi noutro artigo (link) uma relação de risco e benefício. Assim, recomendar a uma pessoa sedentária (ou a qualquer pessoa) realizar a rotina X de exercícios em casa apenas com o peso do seu corpo com o objectivo de se tornar mais activa, sem sequer avaliar a capacidade de tolerância do seu Sistema Neuro-Músculo-Articular, parece-me irresponsável para não dizer negligente.

Vamos supor que uma pessoa sedentária vê alguns dos milhares de vídeos no facebook ou Youtube com as populares recomendações de rotinas de exercícios para fazer em casa que tantos profissionais de exercícios colocam e lesiona-se. De quem é a responsabilidade? Será da pessoa que os realizou? Ou será de quem recomendou uma rotina de exercícios completamente aleatória?

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Existem muitos profissionais que se designam de Personal Trainers, no entanto, as suas recomendações no youtube ou facebook são de exercícios e rotinas PRÉ-determinadas. Ora eu não vejo nada PERSONAL ou personalizado num exercício PRÉ-determinado. Um Personal Trainer não é um prescritor de exercício. Mas sim alguém que sabe avaliar e elaborar um conjunto de estratégias das quais os exercícios fazem parte de forma a responder a uma necessidade.

Se o exercício for Pré-determinado não é personalizado e construído de acordo com as especificidades articulares dos nossos clientes, tornando o Personal Trainer obsoleto. Para ser pré-determinado ou pré-escrito, basta fazer um download daquelas aplicações para telemóvel com exercícios ou consultar as rotinas de exercícios que se colocam no facebook ou youtube.

Vamos a outro exemplo. Quantas vezes consultamos profissionais de reabilitação física e depois de o diagnóstico estar realizado entregam-nos o protocolo de exercícios, que é igual para todos os pacientes, para reabilitar a articulação X ou Y. Se for uma lesão no ombro, saí o protocolo para ombro. Se for joelho, saí o protocolo para joelho. A grande falência desta prática prende-se no facto de estes protocolos muitas vezes serem os mesmos para patologias diferentes da mesma articulação. Outro aspecto é o facto de não existirem os melhores exercícios para reabilitar especificamente uma articulação. Cada pessoa é diferente, com características articulares diferentes. Assim, cada articulação tem que ser avaliada, cada músculo e divisão de músculo têm que ser testados, de modo a poder-se então construir o exercício de raiz baseado na avaliação específica. O recurso às Técnicas de Activação Muscular (link) adquire um papel relevante pois permite-nos ser minuciosos na avaliação do Sistema-Neuro-Músculo-Articular.

Num artigo anterior (link) poderão ler mais sobre as consequências que os protocolos estanques podem ter na saúde das nossas articulações.

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E claro. Faltava escrever um pouco sobre aquela que é a minha preferida que é a da recomendação do “melhor exercício”. Sabendo nós profissionais de exercício e reabilitação (ou deveríamos saber) que existem diferenças na anatomia articular e muscular de cada cliente e paciente, como é que é então possível definir o “melhor exercício”? Se o cliente tiver uma osteoartrose completa do joelho será que realizar um agachamento, que se diz por aí que é o melhor exercício para treinar “pernas”, trará algum benefício? Será que todos os seres humanos agacham da mesma forma (link) para se poder definir o agachamento como o melhor exercício para treinar “pernas” para todos, visto que se pensa afectar todos da mesma forma? E mesmo que fossemos todos iguais, não teríamos tolerâncias diferentes que requeriam algum tipo de avaliação?

Este lema do “Just do it”, tão publicitado por marcas e profissionais de exercício é no fundo um “Don’t think, don’t ask, just do it”! E obviamente quando fazemos algo sem perceber o “porquê” isso pode-nos trazer consequências.

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O problema cresce quando são os próprios profissionais a perpectuar esta mentalidade de que para iniciar a prática de exercício é fácil e que toda a gente com pouco conhecimento o consegue fazer por si próprio. Isto acaba por denegrir a imagem do PT ao passar a ideia para a população em geral de que se tratam de profissionais com pouco conhecimento e que basta ver um vídeo e aprender uns quantos “exercícios” para fazer o mesmo.

Depois junta-se a este problema os “gurus” do fitness cujas opiniões sobre os “exercícios a escolher” ou “os melhores exercícios” influenciam uma legião de seguidores.

Assim, devido a este universo de desinformação, outros profissionais (eu incluído), temos que fazer um trabalho educacional e pedagógico no sentido de quebrar os mitos que os nossos clientes adquirem.

Deixo então a seguinte questão: se não existe simplicidade nas várias ciências que estudam o corpo humano, como se pode pedir a alguém para realizar algo para o qual o seu corpo pode não estar preparado?

 

Antes de aplicar qualquer exercício a uma cliente ou paciente existem questões básicas que importam ser respondidas:

– Quem é o Cliente: uma senhora de 80 anos é diferente de um atleta de 25;

– Qual é o objectivo do exercício: poderá ser aumentar a produção de força dos retractores da omoplata por terem sido detectadas fraquezas nestes grupos musculares durante a avaliação.

– Quail o estado do seu Sistema Neuro-Músculo-Articular: amplitudes articulares activas e passivas; capacidade de produção de força em cada grau de movimento; capacidade de comunicação entre o Sistema Nervoso Central e os músculos, etc;

– Qual o seu controlo: capacidade de intencional e voluntariamente gerar produção de força necessária para controlar cada grau de movimento, numa resposta orquestrada pelo sistema nervoso central;

– Qual a sua tolerância: relacionada com uma patologia articular, metabólica, tolerância do sistema imunitário, estado do sistema nervoso simpático, etc.

 

Se me perguntarem o que tenho que saber antes de aplicar um “simples exercício” a resposta será:

– Anatomofisiologia geral;

– Fisiologia muscular;

– Fisiologia articular;

– Neurofisiologia;

– Biologia celular;

– Algum conhecimento específico de sistema endócrino e imunitário;

– Fisiopatologia (no caso de quem trabalha em reabilitação física);

– Etc.

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Se queremos melhorar a saúde e consequentemente a vida dos nossos pacientes e clientes temos que estudar estes temas (possivelmente serão matéria suficiente para nos ocupar o resto das nossas vidas) de forma a virarmos o foco para o interior.

Podemos então concluir que recomendar exercícios de forma arbitrária com uma mentalidade “Just do it” será positivo para a maior parte da população? A minha resposta já a conhecem.

Então qual a solução a adoptar como profissionais quando somos confrontados por cliente ou pacientes quando nos perguntam qual o ou quais os exercícios que podem ou não fazer? A minha resposta neste caso é simples, “não sei, não o avaliei”!!!

Boas leituras e até ao próximo artigo!

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