Será que nos movemos todos da mesma forma?

Já escrevi sobre a importância da contracção muscular quer para a prevenção e reabilitação de lesões quer para a melhoria da performance desportiva. Referi também que os músculos são os nossos motores internos e como tal merecem uma enorme atenção da nossa parte, pois são eles que nos movem. Deixei também alguns alertas relativamente ao efeito negativo que a prática sistemática dos alongamentos (passivos) podem ter sobre as nossas articulações.

E isto para chegar onde? Bem, antes de me debruçar mais a fundo sobre a temática dos alongamentos propriamente dita, parece-me sensato fazer uma reflexão sobre o local onde o movimento ocorre: as articulações.

Uma articulação representa a união de dois ossos cujo propósito é o de permitir o movimento entre esses mesmos ossos. Existem vários tipos de articulações que têm mais ou menos mobilidade. E estar a defini-las não é o propósito deste artigo.

Portanto, mobilidade é a palavra-chave no que diz respeito às articulações. Porquê? Por uma razão muito simples. Em primeiro lugar por uma questão de terminologia. Para se poder falar de algo correctamente sem estar a criar uma linguagem que dê origem a mitos, propagação de sound bites e mal entendidos é necessário utilizar os termos adequados.

Então se uma articulação é móvel isso significa que não tem flexibilidade? YES! Isso mesmo. Que eu saiba os ossos são estruturas rígidas e não dobram. E por favor não confundir o que é uma articulação a mover-se para além do seu limite normal com o osso a “dobrar”. Quando uma força é aplicada a um osso e é superior à sua rigidez, este não vai começar a dobrar, simplesmente fractura.

O que acontece durante o movimento é que os ossos movem-se à volta de um eixo que é definido pelo formato de cada união entre esses mesmos ossos: a articulação. Fica assim claro, para que se deixe de utilizar terminologia que não se adequa a este contexto (eu sei que isso não vai acontecer 🙂 ).

 

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Existe esta crença de que somos todos iguais (em termos de mobilidade articular) e como tal devemo-nos conseguir mover da mesma forma. Certo? Errado, muito errado mesmo.

Vejamos as seguintes imagens.

 

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Nesta imagem conseguimos ver que as duas “bacias” não são iguais. Na da direita as cavidades onde o fémur encaixa (cavidade acetabular) estão dirigidas para baixo e para os lados enquanto que na da esquerda estão mais dirigidas para a frente. Ainda não estão convencidos que estes aspectos condicionam a forma como nos movemos? Vejamos a próxima imagem.

 

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Aqui podemos ver de forma mais precisa os ângulos de orientação das cavidades acetabulares em cada anca (íliaco). Reparem que o da direita aponta directamente para o lado enquanto que o da esquerda para baixo num ângulo de mais ou menos 45º. Não poderão estas diferenças condicionar movimentos como rotação interna e externa da ancas ou flexão e extensão? Ainda não estão convencidos? Vamos à próxima imagem.

 

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Reparem nos 4 fémures e vejam se conseguem encontrar um que seja exactamente idêntico na sua forma. Agora reparem nos ângulos do pescoço e cabeça. Conseguem aqui encontrar um ângulo que seja exactamente idêntico? Os ângulos da cabeça e pescoço dos fémures da direita, embora possam apresentar ângulos aparentemente idênticos, existem diferenças na dimensão e comprimento da cabeça e pescoço. Será que este facto afecta movimentos como a abdução?

É a última imagem de ossos, prometo :-).

 

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Agora reparem nos ângulos do pescoço e cabeça destes fémures vistos de cima. O fémur da direita tem um ângulo de 45º, enquanto que o da esquerda não apresenta ângulo. Não poderão estas diferenças condicionar as rotações interna e externa bem como a posição dos nossos joelhos?

Imaginem que combinávamos as ancas e os fémures que vimos para formar várias ancas. Já pensaram na quantidade de combinações? A quantidade de possibilidades? As diferenças na mobilidade que cada articulação da anca teria?

Estas imagens são apenas exemplos de uma articulação. É importante reter que as diferenças existem em todas as restantes articulações do corpo humano.

Isto tudo para vos mostrar que, antes de sequer pensarem em esticar o que quer que seja, considerem que a estrutura condiciona a forma como nos movemos e quando está no limite…talvez seja porque há algo a impedir que se chegue mais longe.

Aliás uma das consequências da “violação” consecutiva ao longo de anos das amplitudes naturais das nossas articulações é o desenvolvimento por parte do nosso corpo de osteófitos, também conhecidos como esporões (não estou a dizer que esta é a única razão pela qual estes surgem mas uma muito provável). Então, neste cenário qual é a função do osteófito? Impedir-nos de alcançar amplitudes que violam as nossas articulações. É impressionante como o corpo desenvolve soluções para impedir que nós o possamos agredir.

 

Vou dar-vos um exemplo. Imaginem que treinam no ginásio e gostam muito de realizar exercício como puxar a barra à nuca ou press de ombro. Então estás a dizer que esses exercícios são maus? Não foi isso que eu disse! Depende das nossas articulações. Isto é, se podem realizá-los da forma tradicional. Depois de avaliadas e se puderem, tudo bem, se não têm que se modificar alguns aspectos para que possam ser realizados para aquele corpo sem causar dano articular. Daí a importância desenvolver um exercício para as articulações versus articulações que têm que encaixar no exercício. Onde é que eu ia? Então, neste cenário ao fim de alguns anos a dor começa a aparecer no ombro e temos que consultar com um médico especialista. E o diagnóstico depois de fazermos os exames é: osteófito no acrómio. O que significa que teríamos uma limitação crónica na elevação do braço. Neste sentido percebemos que tanto a falta de movimento, como movimentos que excedam consecutivamente as amplitudes naturais das nossas articulações têm consequências para as mesmas.

 

Uma outra situação que gostaria de discutir é a da espargata. Já ouviram qualquer coisa do género “toda gente, com muito treino, consegue fazer a espargata” (dito por um treinador com uma certa dose de fanfarronice :-))!

Parece-me evidente que isso não é possível para toda gente. Para isso seria necessário alterarmos a estrutura dos nossos ossos e articulações. E as únicas formas de os alterarmos, é através de desgaste articular ao longo dos anos (mas isso não altera os ângulos, apenas as superfícies de contacto e estruturas envolventes) ou através de um acidente grave que requeira cirurgia.

Então e se eu quiser ganhar mais mobilidade articular para além da que o meu corpo me deu? Bem…aí só alterando a estrutura através de cirurgia, no entanto, penso que nenhum cirurgião consciente cederia a tal capricho!

A cirurgia faz parte de um espectro de intervenções estando localizada precisamente no final desse espectro. O que significa (teoricamente) que só se recorre a esta medida em casos graves ou quando foram tentadas outras soluções que falharam.

 

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Outro exemplo: “o agachamento ideal é o que se vai até abaixo em que as coxas tocam nos gémeos”.

Para além das diferenças anatómicas que vimos nas ancas representadas nas imagens acima, existem outras a considerar que condicionam o agachamento. Refiro-me portanto, ao comprimento da tíbia e fémur, à quantidade de movimento disponível na articulação do joelho e tornozelo e dimensão dos músculos envolventes em cada articulação (anca, joelho e tornozelo). Assim, se eu alcanço uma determinada amplitude de movimento e tenho as massas musculares em contacto uma com a outra, será que posso ganhar mais movimento nessa articulação? Provavelmente…se perder massa muscular! Ou através de uma técnica que eu inventei que designo de “esmagamento muscular”. Não inventei nada! É brincadeira! Viram como facilmente consegui criar um sound bite? Já estou a imaginar montes de solicitações para cursos de “esmagamento muscular” :-).

Portanto, podemos concluir (espero eu) que não haverá uma única pessoa a realizar um agachamento da mesma forma. Assim, talvez não seja sensato forçar algo pode não respeitar a anatomia do nosso próprio corpo.

É fundamental assim, sabendo que todas as pessoas apresentam diferenças anatómicas osteo-articulares, procurar trabalhar com essas diferenças e manter o foco na performance interna e não no exterior. Pois este pode, muito bem, induzir-nos em erro.

 

Boas leituras e até ao próximo artigo!

 

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