Lesão articular, debilidade muscular e o imbróglio neurológico. Um novo paradigma na reabilitação física.

Eu sabia que algum dia o meu lado mais “nerd” haveria de surgir nas minhas publicações. Por isso, espero que se mantenham comigo e não se aborreçam. Neste artigo abordo o condicionamento do sistema nervoso na presença de lesão articular e a forma como este poderá ficar afectado no desencadeamento da contracção muscular.

No meu primeiro artigo sublinhei a importância do foco na contracção muscular em contextos que vão desde a reabilitação física, personal training até à preparação no treino desportivo.

Se analisarmos bem o funcionamento do músculo-esquelético percebemos que este está concebido para desempenhar uma função principal que é a de contrair. Todos outros aspectos que advêm da contracção muscular são secundários a esta.

Embora haja muita gente que, infelizmente, “acredita” (lá está) que a função do músculo é “alongar”. Num artigo que dedicarei exclusivamente aos “alongamentos”, abordarei mais aprofundadamente a fisiologia do músculo-esquelético e ficará claro que este não tem a capacidade de alongar, mais sim de estender (não é o mesmo que esticar) até um limite máximo.

Assim, já que sabemos qual a principal função do músculo, falta saber como este contrai. Tal acontece através de um processo complexo denominado de encurtando devido ao deslizamento de proteínas musculares umas sobre as outras. E para que finalidade? Para gerar tensão/produção de força para controlar o movimento das nossas articulações, que pode ser desde estabilizar (manter estática) uma dada articulação quando outra está a ser movida até gerar mais tensão para produzir força de forma a acelerar o movimento da articulação para superar a força de uma carga externa.

A grande questão que importa responder é “porque não conseguimos, em certas circunstâncias, que os músculos contraiam?”

 

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Para responder a esta questão vou tentar explicar o que poderá estar por detrás da debilidade/fraqueza muscular.

Em primeiro lugar, importa clarificar que a debilidade muscular é um processo complexo que pode gerar instabilidade articular e consequentemente levar ao desenvolvimento de uma lesão. Caracteriza-se por uma diminuição na força muscular que compromete a sua capacidade em gerar tensão suficiente para realizar determinada acção ou movimento.

 

Factores mecânicos têm sido apontados como possíveis causas da debilidade muscular.

Híper laxidão articular: uma condição na qual se verifica um aumento da amplitude articular devido a uma extensibilidade acima do “normal” da proteína de colagénio. Embora, esta condição seja definida com esta terminologia na literatura científica, é importante clarificar que nem todas as pessoas que têm uma grande mobilidade sofrem de híper laxidão articular. Existem pessoas que simplesmente têm mais mobilidade articular dada a configuração dos seus ossos ao nível das superfícies articulares. Por alguma razão, não podemos ser todos bailarinos, ginastas ou artistas de circo.

Actividades do quotidiano que coloquem as articulações sob permanente carga. A própria obesidade encaixa nesta categoria, pois embora não seja uma actividade, contribui de forma constante e permanente para que as articulações tenham que suportar uma carga elevada, o que por sua vez leva ao desgaste articular. Este desgaste articular com o tempo pode converter-se em osteoartrose, sendo as articulações normalmente mais afectadas os joelhos e as ancas.

Para além da carga a que as nossas articulações estão sujeitas durante o dia a dia, temos que contar com as cargas adicionais a que estamos sujeitos durante a prática de exercício físico seja em que contexto for.

Uma nota importante a reter. Todo, e repito, todo o exercício físico acarreta risco e benefício. E nesse sentido cabe ao profissional quer de exercício quer de reabilitação fazer uma completa e permanente avaliação do cliente/paciente de forma a poder ajustar estas duas variáveis. De preferência que seja sempre para o lado do benefício.

O aspecto que tem sido talvez mais ignorado na reabilitação tradicional é o das alterações da comunicação entre o músculo e o sistema nervoso central. Todos os factores apontados até agora estão relacionados e é quase impossível saber qual começou o processo de enfraquecimento do músculo. Ou seja, por exemplo exemplo, se foi um desgaste articular por carga repetida sobre a articulação ou se foi uma alteração sensorial na comunicação entre o sistema nervoso central que iniciou o processo de desgaste articular por não haver controlo suficiente por sobre a musculatura que movimenta essa articulação.

A um processo em que se verifica uma redução da transmissão de informação por parte dos receptores sensoriais ao sistema nervoso central dá-se o nome de desaferenciação.

No que respeita às articulações essa desaferenciação podes ser designada de inibição muscular artrogénica, e caracteriza-se pela incapacidade dos receptores espalhados pelos músculos, tendões, ligamentos, cápsula articular e inclusivamente da pele de transmitirem a sua informação sensorial ao sistema nervoso central.

Imaginem que vão a conduzir o vosso carro para uma localidade que não conhecem e para isso recorrem ao gps. A meio do caminho o gps deixa de funcionar e vocês ficam sem saber para onde ir. Ora nas articulações passa-se o mesmo. Ou seja, sem sistema de orientação o seu funcionamento não vai decorrer de forma normal.

 

De forma muito sintética o sistema nervoso funciona da seguinte maneira (ver imagem abaixo):

  1. Recolha de informação sensorial por parte dos diferentes tipos de receptores espalhados pelo corpo e envio dessa informação às áreas corticais e subcorticais através de neurónios sensitivos para ser processada. Esta via é designada via aferente.
  2. Processamento e desencadeamento de uma resposta no Sistema Nervoso Central, que pode ser realizado nos andares Superior, Médio, Inferior ou em vários andares ao mesmo tempo.
  3. Envio da resposta através de neurónios motores ao órgão efector, que neste caso é o músculo.

 

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Ora se o sistema nervoso tem esta dinâmica de funcionamento, significa que se alguma das partes for afectada, todo o sistema será afectado.

Assim, quando ocorre dano em qualquer estrutura articular (ligamentos, tendões e cápsula entre outras) que pode decorrer de desgaste articular prolongado, um episódio único em que a articulação é incapaz de lidar com uma carga excessiva, ou mesmo uma lesão de contacto, essa lesão também afecta os milhares de receptores contidos nessas estruturas.

E o que é que isto provoca? A tal inibição muscular artrogéncia, ou seja, a incapacidade dos receptores enviarem informação ao sistema nervoso central.

E como é que isto afecta a contracção muscular voluntária? Como referi anteriormente, se uma parte do sistema é afectada as outras também o são. Desta forma, ao haver uma diminuição da informação sensorial enviada pelos receptores o sistema nervoso central, este também não consegue realizar um óptimo processamento e orquestração de resposta, afectando assim a via descendente, ou seja a de activação do músculo.

 

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Nesta imagem podemos ver vários exemplos de receptores, localizados em diferentes partes do corpo, e os percursos que os seus neurónios sensitivos têm que fazer de forma a informar o sistema nervoso central. No fundo, como a periferia comunica com o centro de comando.

 

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Nesta imagem podemos ver os trajectos distintos (existem outros) que o sistema nervoso central tem para comunicar com os músculos. Desta forma, podemos verificar como a resposta processada nos vários andares do sistema nervoso central afecta a contracção muscular.

 

Uma das grandes consequências desta “falha” do sistema causada pela lesão articular, apontada por estudos recentes, é o facto de levar a uma reorganização do sistema nervoso central a nível cortical (andar superior) e espinal (andar inferior), nomeadamente ao nível do córtex motor contribuindo para uma permanente inibição da musculatura que rodeia a articulação afectada. Um caso em que esta situação se verifica é quando alguém sofre uma lesão no ligamento cruzado anterior. Durante o processo de reabilitação, dada a incapacidade dos receptores do LCA transmitirem informação ao sistema nervoso central, este tem uma dificuldade enorme em conseguir fazer contrair o quadricípite. E se o músculo não contrair adequadamente também não consegue posteriormente desenvolver massa muscular.

Outro aspecto que também perpectua a incapacidade dos receptores musculares e articulares transmitirem informação ao sistema nervoso é a ocorrência de um processo inflamatório na articulação.

 

Picture4.pngEsta imagem exemplifica como um dano ao nível dos receptores articulares do complexo do ombro, em particular do tendão do músculo supra-espinhoso, dificultam a resposta por parte do sistema nervoso central. Esta situação deve-se não só à inflamação causada pelo dano das estruturas articulares, mas também pela incapacidade dos receptores transmitirem a sua informação sensitiva para processamento superior o que afecta a activação dos neurónios motores (alfa e gama) cuja função é a de promover a contracção das fibras musculares que inervam.

 

Assim, a investigação alerta para que as lesões articulares não sejam apenas vistas como algo local mas como uma disfunção que afecta também o sistema nervoso central. Portanto algo mais abrangente que afecta vários sistemas. Nesse sentido é necessário estar munido de técnicas que possam de facto não só afectar a aceleração da regeneração dos tecidos lesionados, mas também que possam influenciar o sistema nervoso central.

Tendo em conta esta realidade, torna-se cada vez mais imperativo, por parte do profissional de exercício e de reabilitação, o estudo do sistema nervoso e como este pode ser alterado com a presença de uma lesão articular.

Uma excelente forma de conseguir afectar o sistema nervoso, melhorando a transmissão de informação por parte dos receptores articulares de forma a promover uma melhor contracção muscular (via eferente) é através das técnicas de activação muscular.

O objectivo do processo de activação muscular é o de melhorar a comunicação entre o sistema nervoso central e os músculos. Este trabalho permite fazer uso da plasticidade do sistema nervoso (capacidade de adaptação do sistema nervoso) ao favorecer novos caminhos neurológicos, novas sinapses. Ou seja, quando existe debilidade muscular e consequentemente dificuldade em contrair, as técnicas de activação muscular ajudam a encontrar alternativas às vias de comunicação que eram normalmente utilizadas pelo sistema nervoso, favorecendo assim a contracção. Estas procuram afectar o sistema nervoso quer ao nível dos receptores, de forma a melhorar o envio da informação sensitiva às áreas de processamento, quer ao nível da resposta por parte do sistema nervoso central no sentido de optimizar o processo de contracção muscular.

Deixo-vos o link para o artigo que escrevi sobre esta técnica para os que quiserem saber mais sobre a mesma.

Para finalizar, deixo-vos a seguinte nota. Os músculos são os nossos motores, e sabendo como funcionam (desde o seu controlo por parte do sistema nervoso até à sua fisiologia local) sabemos tirar rendimento deles, tornando-nos mais fortes para atingirmos os nossos objectivos de treino ou para acelerarmos o processo de reabilitação.

  

Boas leituras e até ao próximo artigo!

 

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