Biomecânica: parte 2. A ciência ao serviço do corpo

Quando se aplica força a um corpo existem duas variáveis que vão sempre de mão dada: o risco e o benefício.

Ora se o risco existe e é real, não vale a pena tentarmos saber um pouco mais como o reduzir?

Por isso, para se estar do lado do benefício é preciso estudar…biomecânica!

Porquê? Para se saber o que se faz! Como? Tendo domínio das ciências que servem de pré-requisito ao estudo da biomecânica e com o desenvolvimento do estudo da mesma, como profissionais, dotamo-nos de uma visão raio-X!

Esta ferramenta é fundamental para que tanto os profissionais de fitness e de reabilitação virem o seu foco para a performance interna.

Performance interna é o foco no interior, foca nas articulações, nos músculos, privilegiando o sistema nervoso como centro de controlo de todo este processo.

A grande maioria das modalidades de fitness tem o seu foco na performance externa. Associado a este facto está também aquilo a que designo de mitologia do fitness que se tornou quase uma ciência paralela, mas que atrai muitos mais profissionais do que a verdadeira ciência!

Ora tomemos como exemplo uma das afirmações mais falaciosas que minam esta profissão: “não devemos treinar músculos, mas sim os movimentos”! Quando ouço isto até deito fumo das orelhas  :-).

Ora o que é que move as nossas articulações?! Hmm? Que eu saiba são os músculos! Se, por acaso melhorarmos a função de um músculo não conseguiremos desempenhar melhor um determinado movimento? Não passaríamos assim, a realizar esse mesmo movimento estando mais do lado do benefício do que do risco?

 

59117101.jpg

 

Os movimentos externos em si não são funcionais. Não podemos sequer classificar exercícios como funcionais pois podem não se adequar a todos os corpos/articulações. Se o exercício é pré-determinado sem que haja uma avaliação de como funciona cada articulação envolvida no mesmo, este não é funcional! O movimento articular esse sim é funcional! Para tal é necessário garantir que todos os músculos que o efectuam estão de facto a exercer a sua função de controlar o movimento articular. Mas para isso tem que se saber o seu eixo, o que são roldanas anatómicas, braços de momento, etc. E isso só se sabe como? Estudando mecânica do exercício.

 

Picture6.png

Nesta imagem podemos ver 3 cenários. No primeiro cenário não sabemos em que sentido a senhora vai mover o braço, se em flexão ou extensão, porque não sabemos a direcção, magnitude e ponto de aplicação da força que lhe vai mover o braço. No segundo cenário sabemos que existe uma força a puxar o braço em extensão e por isso agora sabemos qual vai ser a solicitação interna para esta posição, ou seja serão os músculos que nesta posição resistem à extensão (grande peitoral, deltoide anterior, coraco-braquial, etc). E reparem que não escrevi os flexores do ombro pois podem variam de acordo com vários factores como poderão ver mais abaixo. No terceiro cenário, verifica-se uma força a puxar o braço em flexão e portanto, serão os extensores do ombro nesta posição a resistir (grande dorsal, deltoide posterior, grande redondo, etc). 

Isto tudo para perceberem que os movimentos em si não nos dizem nada é necessário ter mais dados (e neste exemplo temos apenas o de uma força, mas existem mais a saber) para saber qual a solicitação interna.

Portanto, focar apenas no movimento é performance externa!

Conseguem perceber agora a diferença entre foco na performance interna vs performance externa? Melhorando a performance interna estamos a criar uma fundação muito sólida para conseguirmos posteriormente melhorar a performance externa.

Como profissionais temos mesmo que nos focar cada vez mais no interior. Não podemos ignorar o facto de o número de lesões decorrentes da prática de exercício físico ter atingido patamares epidemiológicos.

 

8257399f3c9d25c27ae70b7fb10fc64e815b880f952c8ed63f1449e7d0f95321

 

Deixo-vos um exemplo de como o foco no interior pode modificar completamente um exercício para o tornarmos adequado ao objectivo que temos para o mesmo. Deixo-vos também com uma amostra do que é ter visão raio-x para percebermos o que acontece exteriormente mas não se vê a olho nu. E lá porque não se vê…não quer dizer que não exista!

Neste exemplo das “flexões de braços”, podemos ainda notar como a manipulação das forças internas pode modificar as forças externas.

 

Picture2.png

Vou tentar simplificar ao máximo, não querendo debruçar-me sobre o efeito provocado pelo atrito nem o que são eixos e braços de momento, etc. Nesta imagem podemos ver como este exercício difere de uma flexão normal. O que acontece de diferente é que se aplicarmos força para baixo e para dentro criamos uma resultante de forças que passa fora do cotovelo e fora do ombro. No entanto a distância dessa força ao eixo do ombro é maior que ao do cotovelo tanto no topo como em baixo. Em baixo a distância da força ao eixo do cotovelo é mínima. Mas o que significa isto? Significa que resultará numa maior solicitação do grande peitoral (mais na fibras esternais e claviculares), deltóide anterior e também uma participação grande do…bicípete braquial! O quê? Como é que isso é possível? Mas não é o tricípite que extende o cotovelo? Pois é, quando associamos apenas músculos a funções é o que acontece.

Os músculos variam a sua função de acordo com a solicitação que lhes é imposta pelas forças. E neste exemplo é o bicípite braquial que realiza a extensão do cotovelo. Temos que pensar em forças (e outros elementos) para podermos deduzir qual a solicitação interna.

 

Picture1

Nestas “flexões de braços” a intenção do empurrar é para baixo e para fora o que muda a direcção da resultante de forças fazendo com que esta passe agora muito próxima tanto do eixo do ombro como do eixo do cotovelo do lado de dentro. Em baixo a resultante chega a passar mesmo pelo eixo do ombro que faz com que os músculos dessa articulação tenha uma menor solicitação e seja, neste caso, o tricípite braquial a assumir maior preponderância na extensão do cotovelo. Em cima dado que há uma pequena distância dessa linha de força ao ombro, mas do lado de dentro, o músculo no ombro com maior preponderância será o…deltóide posterior!

Podem ver mais exemplos como este na minha página do facebook no seguinte link.

Será que estas mudanças podem fazer a diferença para quem tem patologias ortopédicas no ombro e cotovelo? Bastante mesmo. Ao induzirmos estas alterações nas forças internas pode ser o suficiente entre realizar este exercício com ou sem dores. Quero sublinhar que estas modificações devem ser introduzidas de forma estratégica e não arbitrária de forma a poderem contribuir para uma melhoria das articulações envolvidas.

Surpreendente? Imaginem o que se pode manipular com este conhecimento de forma a fazer face às especificidades de cada cliente/paciente, o que se pode fazer em cada articulação, os músculos que se podem solicitar, etc.

Mas o que se diz é que o conhecimento em biomecânica/mecânica do exercício não tem aplicação prática não é? O exemplo anterior é uma prova de que isso não é verdade.

Um dos pontos fortes a favor da Mecânica do Exercício é o facto de se basear numa ciência exacta, que nos permite calcular e obter dados precisos do que está efectivamente a acontecer nas nossas articulações. Ou seja, é muito difícil de contra argumentar. Podem vir com a teoria X ou Y ou com o que o guru Master Jedi Fitness (pensando melhor talvez seja mais Fitness Sith Lord) disse que isso pode ser facilmente desacreditado com o recurso à Mecânica do Exercício :).

Tomemos outro exemplo, este no âmbito da reabilitação. O que se pode fazer para fazer face a uma patologia degenerativa como por exemplo uma osteoartrose do joelho? Manipulando as forças internas e externas podemos melhorar a função dessa articulação ajudando a diminuir os efeitos causados por esta patologia. Podemos ainda conseguir que o cliente realize um movimento articular que não seria capaz de realizar anteriormente pois fomos capazes de manipular as forças externas de modo a reduzir o efeito das forças internas sobre o local de maior desgaste na cartilagem e osso.

 

56849508

 

Outro aspecto fundamental é que com este conhecimento munimo-nos com a capacidade de sermos nós a criar/desenvolver os exercícios de acordo com o funcionamento das articulações dos nossos clientes e não em ir buscar algo pré-determinado ou uma sequência de exercícios coreografada.

Mas como podemos avaliar a mecânica de cada articulação e o controlo exercido pelos músculos que a rodeiam? As Técnicas de Activação Muscular juntam o conhecimento em biomecânica com uma metodologia específica para testar a capacidade dos músculos comunicarem com o sistema nervoso central. Deixo-vos o link para o artigo que escrevi sobre esta técnica.

Neste sentido deixo-vos um conselho, se algum profissional de fitness ou saúde olhar para vocês, sem sequer vos avaliar, e disser “o que você tem é X”, fujam! Porque essa pessoa não tem noção do que está a dizer. Em certos casos, e haverá muitos, em que temos que ser humildes e simplesmente dizer “não sei”. Mas sem estar munido de uma metodologia de avaliação…não se pode avaliar ninguém e chegar a quaisquer conclusões sobre o que o cliente/paciente tem ou não. A visão não é de todo o nosso melhor método de avaliação articular. Aliás como ficou demonstrado no exemplo das flexões de braços. O que não se vê, não que dizer que não exista. 

Estudar mecânica do exercício é tornar os exercícios adequados a cada articulação, às necessidades de cada cliente/paciente. É tornar o Personal Training verdadeiramente personalizado. É visualizar o que realmente acontece dentro da articulação a cada momento, a cada grau de movimento quando realizamos cada exercício.

 

Bons treinos e boas leituras!

 

Contactos:

Télemóvel: 939 442 744

Email: info@neural-touch.com

Facebook: www.facebook.com/neuraltouch

Google+: https://plus.google.com/u/0/118242189471189628903/posts

Twitter: http://twitter.com/NeuralTouch

Instagram: https://www.instagram.com/neuraltouch/

Linkedin: https://www.linkedin.com/company/neuraltouch?trk=company_logo

 

Referências:

Kerr, ZY, et al. Epidemiology of weight training-related injuries presenting to United States emergency departments, 1990 to 2007. Am J Sports Med. 2010 Apr;38(4):765-71

Inouye, J. et al. A Survey of Musculoskeletal Injuries Associated with Zumba. Hawaii J Med Public Health. 2013. 72(12): 433–436.

Girardi, A. et al. The Injury Consequences of Promoting Physical Activity An Evidence Review. BC Injury Research and Prevention Unit. 2013

Jones, C. et al. Weight Training Injury Trends. The Physician and Sportsmedicine. 2000. 28:7, 61-72

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s