Alongamentos para prevenir “encurtamentos musculares”: a origem do mito

Depois de já ter escrito sobre as diferenças na anatomia das nossas articulações, como estas fazem com que nos movamos de forma diferente e como este facto condiciona a nossa “postura”, parece-me relevante reflectir um pouco sobre uma das temáticas que mais controvérsia gera. Nada mais, nada menos que a dos alongamentos.

Existem inúmeras razões pelas quais se alongam músculos, mas a principal razão pela qual a maioria das pessoas recorre a esta prática é a prevenir supostos encurtamentos musculares.

Em toda a minha formação académica, quer na licenciatura quer no mestrado, o estudo intenso e extenso dos alongamentos e a sua aplicação eram quase endeusados.

Integrei o uso dos alongamentos na minha prática profissional durante 4 anos, até ter começado a questionar o porquê do seu uso, utilidade e resultados.

A partir de 2010 deixei de recorrer a esta prática e ainda tive que frequentar sessões dos alongadores anónimos :-).

Posso-vos garantir que até hoje não encontrei UM ÚNICO estudo científico (ainda não desisti, continuo à procura) que demonstrasse que o encurtamento muscular ocorre em seres humanos saudáveis. Principalmente nas que passam muitas horas sentados. Em pessoas que apresentam problemas motores esta situação é diferente devido a alterações neurológicas que contribuem para modificações fisiológicas do tecido muscular e tecidos envolventes. Assim, em pessoas que não apresentem este tipo de patologias, não se verifica redução do comprimento de cada proteína muscular ou de cada unidade contráctil do músculo (sarcómero).

Com isto não estou a invalidar o facto de músculos que apresentam tensão neurológica limitarem o movimento articular. No entanto, isso é uma temática a abordar noutro artigo embora já tenha escrito sobre esta no artigo sobre as Técnicas de Activação Muscular. Ainda assim, nesses músculos não se verificam alterações nos seus componentes de forma a afectar o seu comprimento. Nesse caso o problema está relacionado com o controlo exercido pelo sistema nervoso, que pode estar relacionado com a estabilidade articular, e é algo que requer alguma investigação de forma a encontrar a causa dessa tensão muscular.

 

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Muito dos mitos associados à prática dos alongamentos advêm de uma má interpretação da ciência (e acreditem que também existe má ciência), nomeadamente do que acontece aos músculos durante o envelhecimento, desuso e a imobilização.

Vejamos então o que a ciência nos diz sobre o que poderá acontecer ao músculo nestas circunstâncias:

– Redução da grossura da fibra muscular devido à sua atrofia,

– Redução do número de sarcómeros em séries e em paralelo pela perda de proteínas contracteis e não pela alteração do seu comprimento;

– Verificou-se maior perda me massa muscular e capacidade de contrair quando a imobilização era realizada numa posição encurtada versus alongada.

– Redução da excitabilidade dos neurónios motores com consequente redução da capacidade de contrair das fibras musculares, afectando e assim a produção de força;

– Adaptação do tecido conectivo (ligamentos, tendões, fáscia, etc) quando o músculo se encontrava imobilizado numa posição encurtada o que dificultou a sua capacidade de extensão.

– Num estudo, os alongamentos efectuados preveniram a perda de massa muscular mas não o encurtamento muscular.

 

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Relativamente às limitações e considerações destes estudos há que reflectir sobre o seguinte:

– A grande maioria destes estudos foram realizados em ratos, gatos e coelhos entre os anos 70 e 90 quando ainda não haviam comités para avaliação de questões de ética (neste caso o uso de animais).

– Sendo a maioria dos estudos realizados em animais poderão haver diferenças relativamente ao que pode acontecer com seres humanos.

– Existem escassos estudos realizados em seres humanos.

– Os grupos eram muito pequenos o que dificulta o alcance de alguma significância estatística.

– Os estudos foram realizados em determinados contextos e devem ser interpretados nesses contextos e não generalizados.

 

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O que podemos concluir então?

– Os alongamentos poderão não ajudar no ganho de novos sarcómeros de modo a alcançar maior comprimento muscular total;

– A perda de sarcómeros poderá não ser assim tão significativa para uma alteração do comprimento total do músculo;

– Neste caso em particular, o da imobilização (e temos que ser específicos no contexto para não criarmos generalizações que darão origem a mitos e sound bites), alguma mobilização passiva (e não alongamento, flexibilidade ou estiramento como se gosta de designar) poderá ser útil para prevenir a perda de massa muscular, mas não para aumento do comprimento do músculo. Se será benéfico forçar a articulação e os tecidos de forma agressiva (que é a prática comum no contexto da reabilitação tradicional)? Não me parece que seja a melhor abordagem e que traga grandes benefícios. Já existe demasiada investigação a alertar para os efeitos negativos desta prática. Aliás o corpo irá sempre proteger-se de agressões que lhe são impostas.

 

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Tendo em conta este facto não seria de pensar em outras soluções para lidar com os efeitos negativos provocados pela imobilização? Excluindo fracturas graves, parece-me que a imobilização se torna desnecessária. Lembro-me quando estava a morar em Londres uma das práticas que lá utilizavam, para evitar a perda função articular e muscular nos membros inferiores, era o recurso a uma bota insuflável. Esta permitia uma certa imobilização (para permitir a regeneração do tecido ósseo), menor impacto, mas ainda assim permitia que a pessoa caminhasse quase normalmente, preservando a função muscular evitando assim a sua atrofia.

Não há dúvida que o músculo-esquelético humano é um tecido com uma enorme capacidade de adaptação, aliás podemos ver isso quer na perda de massa muscular decorrente da imobilização quer no aumento de massa muscular como adaptação ao treino com cargas.

Desta forma facilmente se percebe, de onde vem o mito dos alongamentos para evitar e prevenir encurtamentos musculares.

 

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Nesta imagem podemos ver vários cenários e o que acontece a cada unidade contráctil muscular: o sarcómero. Em todas as posições o que se vê é um deslizamento das proteínas contracteis umas sobre as outras. Verifica-se alteração do comprimento de cada proteína muscular com o alongamento ou encurtamento do sarcómero? Não! O que se verifica é uma alteração do comprimento do sarcómero através do deslizamento destas proteínas sobre si mesmas. Reparem na posição alongada. O que acham que acontece se se exceder aquele comprimento? Pois é!

 

Tomemos como exemplo alguém que passa sentado 7, 8 ou mais horas por dia. Nestas pessoas, se de facto os músculos ficassem “encurtados” elas não se levantavam pois esses supostos músculos não teria a capacidade de estender!

Sabendo que a principal função do músculo é contrair (para produzir força) e NÃO alongar, porque não utilizamos mais essas capacidades para ganhar amplitude de movimento nas nossas articulações? Não estaríamos a fazer uso da nossa própria tecnologia interna se recorrêssemos a esta prática? Não seria muito mais natural do que ter alguém a forçar as nossas articulações para além da sua amplitude anatómica?

Não sou inteiramente contra alguma mobilização passiva em certas circunstâncias (que são muito poucas) mas sem o recorrer ao forçar das articulações bem como ao exceder da sua amplitude anatómica. Ainda, assim a sua aplicabilidade é muito reduzida em comparação com outras práticas como é o caso do uso da contracção muscular para ganhar amplitude articular.

Questões como o que alongamos, para que alongamos e que consequências têm para as nossas articulações, são questões vou procurar responder em artigos futuros.

Até lá, desejo-vos boas leituras!

 

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